Wednesday, 27 August 2014

Prosema

As ruas desta cidade por vezes são tenebrosas, 
não só pelo aspecto físico mas pelo que nelas vagueia. 
O medo rasteja deixando náusea no ar e um trilho asqueroso no chão. 
Sensações que me percorrem o corpo e 
levantam-me o pelo eriçando-o e deixando-me pronto para o ataque. 
O animal que veste a minha pele sente-se ameaçado e rosna. 
Há perigo no ar, cheira a sangue por derramar, 
e há uma luta que começa-se a desenrolar, 
o medo mostra as suas garras afiadas e atira-se a minha cara golpeando-me o queixo,
rebolamos no chão do meu estômago, 
empurrando-nos um ao outro contra as paredes do plexo solar, 
o cérebro vomita 20 mil imagens por segundo, 
ofuscando-me a visão e sinto as minhas costas profundamente arranhadas, 
todas as minhas ideias e convicções ameaçadas, 
transpiro por todos os poros, agua, sal e sangue cobrem-me dos pés à cabeça. 
Jazo no chão, cuspindo fogo de ira plutónica, olhos esgazeados, 
fera ferida que convalesce e puxo do fundo das mais negras entranhas um rugido roco e penetrante, um mini sismo estonteante, e tudo faz-se pó.

Monday, 25 August 2014

Morte ao Sol


Como um vento de furacão

como um brilho na escuridão, 
para sempre suspenso do chão, 
tens-me como a um irmão.

Mais do que religião
magia em jeito de canção
um grito para a imensidão
um deserto, um sertão

E apareces como uma manhã
cheiro fresco a maçã
olhos cor de avelã
verdadeira alma irmã

A tua voz é sopro forte de emoção
coice de garanhão
espada quente na mão,
apontada ao meu coração

Para mim nunca serás em vão
em mim tens a fidelidade de um cão
muitos sims quase nunca um não.
uma ferida mortal à solidão.

Wednesday, 20 August 2014

O Dragão

Há em mim um Dragão adormecido
Uma besta que descansa
Neste quarto enegrecido
Uma vaga que só avança
Para a rocha em tempo devido

E quando a mim a noite alcança
E o manto do silêncio aconchega
O coração bate a compasso, profundo.
Do fundo há um rumor que chega
Algo agita-se nesta natureza.

De súbito ouve-se a trovoada
Mil lobos uivam na madrugada
Ergue-se o mar com a nortada
E a terra sangra, angustiada
Mas o Dragão,
Com alma conquistada,
Não se mexe, não se assusta
Não diz nada.

Tuesday, 19 August 2014

Distâncias

O escuro cresce, irrompe do chão e trepa as paredes magoadas e doridas deste meu quarto. 
Construo e "desconstruo" este texto do nada, sem inspiração e sem assunto para escrever, apenas sigo palavras, umas asseguir às outras salteando por entre este espaço vazio que acolhe estas coisas que caiem dos meus dedos e do meu pensar. Vazio, vácuo, espaço, são dádivas do universo, que seria de nós se não tivéssemos nada para preencher, que seria do artista sem uma tela vazia, que seria de um decorador, sem uma sala vazia? Onde despejaríamos os tesouros que vivem connosco se não houvesse espaço, por onde caminharíamos? Não sei!!
Olho para a minha janela encardida de chuva e um pouco de terra e ainda consigo ver o dia a morrer mais uma vez, mas morre feliz porque sabe que amanhã estará de volta. O eterno retorno é um conceito que aconchega-me o coração, adoro a ideia. Eternidade espera-nos de braços abertos, para quê correr!! Calma que não há fim, minha gente!! A hora é de festejar e de mais nada, é de juntar os corpos e bailar pela noite dentro, acender fogueiras, e saltar por cima delas, trazer o vinho e a música e cantar alto e a bom som e tom, de preferência. Deixemos de seguir sonhos vãos, comecemos a olhar para mais perto do que para longe, para conseguir ver a distância teremos que perfurar muitas coisas e pessoas com a nossa vista, e ficar, permanentemente,  com aquele olhar, como quem está hipnotizado pelo horizonte magnético, colado à parede do futuro. Já muitos têm dito que a Terra é farta em recursos, e que se quisermos há suficiente para todos, o que é que nos impede de partilhar, e seriamente deixar esta procura incessante pelas lonjuras? 
E foi aqui que os trilhos do meu pensar vieram-me deixar, a escuridão já engoliu o meu quarto com voracidade, é noite, é hora de cantar.

Curtinho

O sol não brilha hoje nas terras do norte, nuvens voam como abutres
por cima desta carcaça que é a cidade Londrina.
Os anos passaram depressa como se hoje tivesse acordado do
sonho que foi a mocidade e essa tivesse deixado o seu
perfume doce nos quartos da memória. Ainda há tempo para viver,
há sempre mais tempo. Até não haver mais!
As árvores abanam docemente ao sabor do vento frio que sopra lá
fora, alheias ao clima ao transito às guerras à fome, enfim às
tragédias que assaltam esta nossa existência humana. Quero ser árvore
na minha próxima materialização. Já preenchi o requerimento no
departamento de vocação e estou a espera de resposta.
Quero uma existência calma sem grandes expectativas nem grandes surpresas,
quero apenas existir, se possível à beira dum lago ou de um riacho com espaço para
crescer e simplesmente estender a minha visão ao máximo e contemplar a
beleza que nos rodeia a todo o instante. No verão dar fruto sem apego e sem cobrança,
dar abrigo e descanso a quem precisa, sentir a chuva com todo o meu ser
sem ter de procurar abrigo, deixar as minhas folhas voarem ao vento,
saber que nada me pertence e ao mesmo tempo saber que se pertence a tudo,
e à noite no meio da escuridão dos campos poder ver o céu e as estrelas em todo
o seu esplendor e testemunhar a dança cósmica que a terra interpreta pelo espaço.

Centelhas

O maior erro que alguém pode fazer é fugir de si próprio.
Andamos sempre pelas sombras a tentar ser algo que não somos,
desejando aquilo que não temos, insatisfeitos sempre, até ao fim.
Isto soa a filosofia barata, espiritualismo de plástico, mas no fundo
tudo não passa disto, de uma ideia.
Por vezes, em relâmpagos ultra rápidos de imaginação que me
assaltam a cabeça, vejo e sinto o todo que nós somos,
e a sensação que foi deixada para trás, aquele mero vestígio é o
que me embala por dias de sonho, é o que aconchega a alma às paredes,
azul estelar, do meu corpo. Eis que mergulho na galáxia do meu ser,
e nado nos mares calmos do universo. Universo, sim!!
e não biniverso ou triniverso... Somos autênticos calhaus pensantes,
somos a voz do universo todo, dentro de nós trazemos a centelha universal à qual,
procuramos sempre regressar. O acto sexual é uma das melhores
maneiras de tentar chegar lá.
Quando dás de conta estás é a tentar possuir a ti prório,
queres voltar para dentro do casulo de onde vieste,
queres encher um vazio, preencher uma distância.
Todas as pedras aspiram à consciência,
todas as consciências aspiram a pó, e por entre as aspirações é onde a vida encontra-se.