Tuesday, 19 August 2014

Distâncias

O escuro cresce, irrompe do chão e trepa as paredes magoadas e doridas deste meu quarto. 
Construo e "desconstruo" este texto do nada, sem inspiração e sem assunto para escrever, apenas sigo palavras, umas asseguir às outras salteando por entre este espaço vazio que acolhe estas coisas que caiem dos meus dedos e do meu pensar. Vazio, vácuo, espaço, são dádivas do universo, que seria de nós se não tivéssemos nada para preencher, que seria do artista sem uma tela vazia, que seria de um decorador, sem uma sala vazia? Onde despejaríamos os tesouros que vivem connosco se não houvesse espaço, por onde caminharíamos? Não sei!!
Olho para a minha janela encardida de chuva e um pouco de terra e ainda consigo ver o dia a morrer mais uma vez, mas morre feliz porque sabe que amanhã estará de volta. O eterno retorno é um conceito que aconchega-me o coração, adoro a ideia. Eternidade espera-nos de braços abertos, para quê correr!! Calma que não há fim, minha gente!! A hora é de festejar e de mais nada, é de juntar os corpos e bailar pela noite dentro, acender fogueiras, e saltar por cima delas, trazer o vinho e a música e cantar alto e a bom som e tom, de preferência. Deixemos de seguir sonhos vãos, comecemos a olhar para mais perto do que para longe, para conseguir ver a distância teremos que perfurar muitas coisas e pessoas com a nossa vista, e ficar, permanentemente,  com aquele olhar, como quem está hipnotizado pelo horizonte magnético, colado à parede do futuro. Já muitos têm dito que a Terra é farta em recursos, e que se quisermos há suficiente para todos, o que é que nos impede de partilhar, e seriamente deixar esta procura incessante pelas lonjuras? 
E foi aqui que os trilhos do meu pensar vieram-me deixar, a escuridão já engoliu o meu quarto com voracidade, é noite, é hora de cantar.

3 comments:

  1. Gostei demais das linhas de seu texto, Jorge.
    Parabéns e um grande abraço!

    ReplyDelete
  2. Obrigado por ter lido. Abraço amigo

    ReplyDelete
  3. Adorei o que senti ao ler tão expressivo olhar poético sobre vazio a ser preenchido pelo caminhar.

    ReplyDelete