Saturday, 3 October 2015

Negrume




















Por vezes transbordo de negatividade
E as minhas tripas mastigam-se na escuridade
Afoga-se toda a minha humanidade
E reina o ódio, putrida majestade.

E tudo apodrece com meu simples toque
Ao mínimo olhar tudo se contorce
O sol esconde-se, para longe foge
E há nas nuvens o digerir dum choque.

E em mim há um negrume tumular
Uma quietude que começa a sangrar
Um rumor distante um marulhar
Uma podridão a entulhar.

A minha boca cospe ácido e veneno
O meu discurso torna-se obsceno
E um ser que aparentemente era ameno
Torna-se fogo brutal e pleno.




Saturday, 26 September 2015

Diluído

Foi numa tarde enfadada
Vestindo uma pele feita de nada
Que ansiava pela surdez da madrugada.

Escrevendo palavras cor de ferida
Num canto escuro, numa sombra escondida
Nutria um texto de volta à vida.

Envolto em cores que buscam as trevas
Deitado suavemente sobre as ervas
Ignorava o mundo diluindo-me nas eras.


E na tela da minha mente, projectada,
Estendia até ao horizonte, desengonçada,
A minha vida a minha estrada.

Como uma água encardida
Por montes e vales corria perdida
Para o mar como fora a mais pretendida.

E neste baile de esferas
Em que danço às cegas
Haverá tempo algum para esperas?




Wednesday, 2 September 2015

Ferrolhos


Religião aborrece-me

Prende-me a mente na náusea
E cai em mim uma tristeza
Perante uma tal frieza
Que esconde a nossa coroa áurea.

O espaço constelado 
Que irradia de um rosto
É de súbito condenado,
À chave trancado
Num quarto sagrado
E queimado por fogo posto.

Nesses discursos mórbidos,
Sopros de mofo, verbos apodrecidos
Nados mortos de ventres embriagados  
Por cegueira fustigados,
Nadam sanguessugas fantasma
Que de células fazem ostras
Banqueteando-se de citoplasma
Sugam cor, sugam seiva
Sugam o fruto da leiva.

Olho para os fundos dos meus olhos
Onde bóiam estrelas e planetas
Crianças cósmicas, luzes aos molhos
Mil tons em mil paletas.
Abram a alma, soltem os ferrolhos,
Vivam e deixem-se de tretas!








Saturday, 4 July 2015

Poeta?! Não!

Poeta não sou!

não me lembro de ter pedido
nem a padre nem a anjo transladado
um olhar perdido
vasto e incompreendido,
de magoa quarto de abrigo.

Nao me lembro de ter cruzado
nem com deus nem com o diabo
nem a algum ter ofendido.
A dores não fui crucificado
nem em fogo algum fui punido.

Nunca quis ser artista
tampouco de letras malabarista.
que alma foi esta
quem meu corpo domou,
que sopro me animou,
e em que campos me encontrou,
em que negra lista?


nunca caminhei nas estradas da lua
nunca fui de vagar pela noite nua
nunca bebi os astros de taças douradas
não tive nunca musas amadas
não segui ventos nem suas pegadas,
não quis ir pelo mundo
não me perdi nas encruzilhadas.


Vivi sim, numa névoa prenhe de loucura
na casa do medo, com vil fechadura
queimei tudo o que tinha
para ter luz na podre noite escura
e só vi o lá fora através duma ranhura.


e preso em mim, esse grande turbilhão,
sigo por brumas, não a passo, a tropeção,
monte de cacos colados
asneira de trapalhão
por entre versos suados
de baldios ermos arrancados
bomba sem explosão.
autor de escritos cansados
pulos sem impulsão
textos mortos e enterrados
feitos com dedos amassados,
por mão de poeta, é que não!

















Tuesday, 5 May 2015

Om

A única coisa que se pode fazer perante uma ameaça, um ataque ou uma acção provocadora é nada. Devemo-nos manter em silêncio e atentos àquilo que nos provoca, assistir ao chiar das engrenagens emocionais e pensadoras que tenazmente processam a informação e automaticamente disparam o alerta vermelho, consequentemente enchendo de carvão a caldeira da locomotiva de ataque que logo vaporiza o ar com seu fumo negro bloqueando os sentidos, mas sem ordem de partida, sem um manifestar de intenção o carvão acaba por ser consumido e a locomotiva perde a sua força. Perante estas ocorrências é-nos permitido ver o fragmentar dos nossos instrumentos de processamento, dos nossos filtros, despindo-nos dos nossos fatos ilusórios, criando um espaço entre tudo isto e o nosso verdadeiro ser que serenamente regozija-se com a peça que se desenlaça.
E tudo isto acontece num relampejar, voltando tudo ao desnatural, mas não sem deixar uma doce fragrância para trás que alimenta o desapego e cultiva espaço.

Sunday, 12 April 2015

Sem corda

Vivo entre a espada e a parede, num drama que não é o meu, vivo dramas alheios, porque não sei viver o meu, ou talvez recuso-me a vive-lo. O mundo torna-se cada vez mais oco e desprovido de sentido.
Quando era pequeno, um dia prometi a mim próprio que nunca iria sofrer e que ficaria sempre com a cabeça à tona das águas do drama, o que implicou nunca ter nadado para muito longe nem ter mergulhado muito fundo, e ficado sempre até onde tive pé. As aventuras sociais nunca foram o meu prato forte, sinto-me completamente perdido nesses protocolos, conversar e agir como quem negoceia o trânsito no centro de uma grande metrópole, em festas o meu lado favorito é sempre o lado de fora, onde se pode respirar à vontade. Anti-social será uma palavra um pouco forte demais, digamos que fui construído para outros fins. Vim à terra para estudar, observar, fazer o relatório e levá-lo de volta, como um espião na sombra. Amo a humanidade mas à distância, bebo-a em muito pequenas doses. A minha coisa favorita neste mundo confuso é sentar-me numa esplanada ao sol e simplesmente observar a vida a correr, não há mais bela paisagem do que o decorrer do quotidiano. Adoro o som duma casa em silêncio logo a seguir a uma grande festa, adoro o som duma festa a ecoar à distância na noite.
Vivo desligado, de corpo presente e de mente ausente, não sou destas paragens, estou de passagem, não quero ficar mais do que o necessário. Adoro sentir o silêncio que me habita, adoro entrar nesse espaço imenso e escuro e ficar lá a flutuar sem corda.

Wednesday, 4 March 2015

Beijos


Em meu peito
Trago beijos.
Os mais novos, 
Rebeldes, 
Ardem em fogo rápido.
Sorrateiros
Sobem pelas paredes 
Do meu tronco até à boca, 
E dos meus lábios saltam
Para morrer noutras peles
De paixão pouca.

Os maduros, esses não,
São como brasas de carvão.

Lenta e pacientemente
Sustentam a sua temperatura
Rápido vão do morno à quentura
Voltando sempre à sua forma consistente

E agora diz-me:
Quantas marés a lua já orquestrou,
Quantos namoros já banhou com seu luar?
E a boca, quanta saliva já gastou
Para que a estes beijos um lar pudesse encontrar?

Thursday, 26 February 2015

Manifesto

Se magia é manifestar então escrever é seguramente um passo de mágica, e os que criam magos são, e, porque criar não é só escrever, suspeito que o mundo como o desconhecemos é sem dúvida um reino mágico.
Nós somos máquinas criadoras que trazem as fornalhas do universo a arder por dentro, e todos os momentos são lá forjados. Não somos mais do que isso, centelhas criativas, que em todos os instantes desdobram-se enchendo esta tela vazia chamada vida.
Às vezes reflicto na causa das minhas assombrações, das nuvens negras que pairam sobre a minha cabeça (se fosse só às vezes!!!) e não chego a lado nenhum, as nuvens só aumentam de tamanho, mas se em vez de passar tempo a ver televisão (a qual não vejo) ou mesmo até a ouvir música ou até a pensar nos porquês e criar algo imediatamente, não a pensar em criar mas agir logo sem esperar, não há melhor sensação no mundo do que ver algo a ganhar forma vindo dos reinos dos invisíveis, e ao fazê-lo sinto-me terreno, sinto que o vento já não me leva, sinto-me assente e firme, envolto pelo silêncio que cobre o universo, sinto-me abraçado e acarinhado pelo momento presente, na simplicidade de um acto encontramos a iluminação, a razão, o porquê, não é preciso muito, neste caso um portátil e electricidade, mas papel e caneta servem o mesmo propósito, e às vezes melhor por ser mais imediata a forma de conjurar palavras, não tão prático na hora de partilhar, infelizmente.
Pergunto-me por vezes se escrevo mesmo por necessidade ou por aprazer o meu ego com o reconhecimento de outrem, e eis que entra, nesta questão, a minha Carta Astrológica: Eu tenho 4 planetas na casa número 6 ( Sol, Lua, Mercúrio, Urano), sendo esta casa a de serviço ao mundo, e quem tem muitos planetas nesta casa geralmente tem problemas em vincar no mundo, deixam-se ficar para trás, escondem-se da luz da ribalta, e só fazem algo se sentirem que deveras é útil o serviço prestado, e como é que se sabe que o que se faz é útil? Quando reconhecimento é demonstrado. Há, deveras, uma grande lição a aprender, e este texto foi construído com base nessa lição que é a de pôr o pensar de lado a descansar num canto escuro, e simplesmente criar.

Escrito por um mago
da classe das letras
que por entre as gretas,
do véu que nos separa
e que nos prende à samsara,
espreme seus finos dedos
e rouba os segredos
ao outro lado.




Thursday, 12 February 2015

Danço

Estou com calor, estou sobre aquecido, rosno baixinho comigo mesmo, ralho bato espanco cuspo e mijo na cara de meu ser, limpo o sangue das minhas mãos com uma toalha branca e atiro-a para o lixo onde deveras pertence este meu plasma, lixo cármico, paleta de sombras, vinho velho e amargo, veneno acido das eras, mar vago.
Há uma neblina que paira na noite enferrujada desta cidade à beira rio, e as estrelas agitam-nos la por tras do neon mostarda alaranjado.
Danço sozinho no escuro, interpretando a equação infinita.
E no fundo nunca se é só, ou se está só, quando se faz parte de um todo.
É-me impossível ver um futuro, estou preso numa caixa por mim construída, sou escravo e amo ao mesmo tempo, vivendo à beira de um precipício com medo de saltar e voar. E se deveras voo mesmo?! Voarei só, ou pior ainda, inspirarei um voo conjunto? 
Já sei quem falou, ego meu amigo, o único que teme o fim. Voar não é o fim, mas sim o que sempre foi e será.