Sunday, 27 November 2016

Já vivi muitas vidas

Já vivi muitas vidas,
Quis ver por dentro da pele
As legiões escondidas,
E caçá-las com pena e papel.

As cinzas das máscaras ardidas
Nas caldeiras monstras do tempo,
Vãs histórias consumidas,
Efémeras filhas do momento.

Quanto mais fundo é o buraco,
Mais fundo quero ir
Beber desse cósmico contrato,
Até à eternidade e vir.

Nasço sempre em tempo devido,
Tenho estado sempre aqui,
Não me lembro de não ter vivido,
Do não ser nunca me apercebi.

Este fruto que descasco
E que me ilude a cada passo,
É o meu amor, o meu carrasco,
A infinita comédia que é o espaço.

Tuesday, 22 November 2016

Nada deve interferir

Nada deve interferir,
Nada deve cortar
A amarra do sentir
Ligada ao pensar,
Porque é do unir
Que nasce o criar,
O som busca o ouvir,
O silêncio busca o cantar.
Entre o conter e o exprimir,
Entre o colher e o semear,
Um universo a sorrir,
A doce alvorada de um eterno acordar.

Adoro a noite

Adoro a noite
E a sua escuridão silenciosa,
A magia dos astros
Que decora os celestes pastos.
Adoro dias chuvosos,
A música do gotejar,
Hipnótico pingar.
Ah, e quando o sol é engolido,
Pelas nuvens mordido,
Aí sim, regozijo!
Gosto de ver o vento
A correr enraivecido,
E o meu coração corre lado a lado
Irmão na fúria vertiginosa,
Cúmplice dos elementos.
À medida que escrevo
A calma, lentamente, repõe-se
Como se a própria borrasca
Tivesse sido capturada
Por esta carcereira página carrasca,
E more agora dentro das letras.

Thursday, 10 November 2016

Enfeitiçado

Ao nascer fui enfeitiçado,
A este estado condenado
De na terra andar perdido,
De mim estar separado.
Todo o trilho seguido,
Toda a busca por sentido;
Sempre barrado.
E assim, partido,
Vou, ao mesmo tempo,
Para tudo quanto é lado.
O que digo é esquecido,
O que faço ignorado,
Tudo o que exprimo é perseguido
Até ser silenciado.
O meu fogo tem morrido
Nas bocas que tenho beijado,
O exterior foi-me interdito,
O espirito armadilhado.
Mas sinto-me protegido,
De alguma forma guiado,
Em tudo vejo o sagrado, escondido,
Mas tenho que permanecer calado.

Wednesday, 9 November 2016

Entre o pensar

Entre o pensar
Ouço vozes sussurrantes,
A brisa morna a soprar
Palavras ainda distantes.

Um chiar, um burburinho,
Um zumbir a crescer no peito,
Uma maré que sobe de mansinho
E que à lua oferece leito.

Um festim clandestino
Onde às vezes sou convidado,
Um concílio divino
No meu próprio paladino, encerrado.

Neste corpo, senhorio,
Neste salão assombrado,
Sinto, provo, cheiro e crio
Do rumor um canto adaptado.

Porque dessa ladainha,
Gosto de viver embebedado,
E mesmo fora da linha,
Tanto faz, é de bom grado!

Monday, 31 October 2016

Para quê seres homem

Não há barulho suficiente
Que possa acordar
Uma mente inconsciente
Que só queira sonhar.

Não me chega ser dormente,
Não quero mais cá ficar
Nesta névoa indiferente,
Em neblina a divagar.

Dizes-te humano, evoluído,
Não és mais que animal,
Nesse trono pretendido
Está a tua queda abismal.

A vida é feita de mudança,
Em cima de uma constante
Chama que não se cansa,
E ao vento arde deleitante.

Os sentidos consomem
Os elementos como sendo seus;
Para quê seres homem,
Pára e sê deus.

Sunday, 30 October 2016

Nas bruxuleantes estradas

Nas bruxuleantes estradas
Que contornam o colosso adormecido,
Ouve-se ecos de vozes de fadas,
Entoando no espaço escurecido.

A magia encantada,
Que dos poros da terra emana,
Cobre a carne petrificada,
Semi-virgem, pré-urbana.

Por suaves montes abraçada
Ventre dócil, verdejante,
Pela noite velha enfeitiçada
Navega rumo a levante.

Encostas sinuosas
Fecundas e a fervilhar,
Viris coxas rochosas
Que parem o mar.

Pedra cantante
Negra pérola a brilhar,
Húmida, apaixonante
Mansão do sonhar.

Wednesday, 26 October 2016

Tenho um mundo no estômago

Hoje estou a sentir tudo,
Tenho um mundo no estômago,
O coração não fala, está mudo,
Passam-me lâminas no âmago.

A fricção do vento no ar,
A grossura do nevoeiro,
O som da semente a germinar,
Sinto tudo por inteiro.

A lua ao passar
Pelas casas do céu,
Tende a revelar
O que se esconde por baixo do véu.

E por falta de iluminação
Nos negros recantos do meu ser,
Vivo nesta escravidão,
Vivo um falso viver.

Tuesday, 25 October 2016

A um passo além do aborrecimento

A um passo além do aborrecimento
Esconde-se um campo luminoso,
E só quem se entrega a tal tormento,
É quem colhe fruto delicioso.

Não existe apenas um só caminho
Que revele o seu alto portão,
Não, não! Beba-se vinagre, água ou vinho!
Tudo aponta para a sua direcção.

Mas por obra da distracção,
O alvo é constantemente ignorado
Embora entregue a abandono e a ilusão
Permanece uno, vero, imaculado.

É no encalce do sangue pulsante,
É dentro da chuva e do vento,
É neste breve instante
Onde sustenta-se este eterno movimento.

Monday, 24 October 2016

Farsa

É tanta a censura
Que contamina a minha mente,
Que qualquer ideia pura
É estigma de loucura
Ameaça eminente.

Na torre do medo
Donde reina impiedosa,
Tece esse negro enredo
E lança de seu penedo,
A dúvida venenosa.

E como as águas de um rio
Que por entre as mãos passam,
O momento fluiu,
O agora desistiu,
E os ventos da mudança pouco ameaçam.

E o novelo do tempo desenlaça,
E a pele fica ressequida,
E por mais anos que eu beba da taça,
Sem conseguir despir a mental farsa,
De que terá servido esta vida?

Sunday, 23 October 2016

Poção

Para mim o acto de escrever
É tão simples quanto isto:
É um abrigo para me esconder,
É andar no mundo sem ser visto.

Longe do radar
Fora do registo,
Nesse gesto de criar
Perco-me, não existo.

Ao cheirar essa poção
Que borbulha sobre o lume,
Incha-me o coração
Inebrio-me com o perfume,

E o transe que me guia
Pelo espaço interior
Mostra-me aquela magia
Que faz ouro disfarçar-se de dor.

Neste mundo encantado,
Nesta bela miragem
Sou um mero convidado
Que descansa da viagem.

Thursday, 13 October 2016

Abraço

Não deixes que o medo
Polua o teu amor,
Não há tarde nem há cedo
Na lei do criador.

Pára de controlar,
Deixa ir!
O coração bate sem o pensar,
O sangue não pede o fluir.

O ferro vai a temperar
Ao beijo de chama pura;
É governando os espíritos do ar
Que a águia ganha altura.

Solta a tua criança
Num só acto disperso:
Ei-lo abraço que alcança
Todo o universo!

Wednesday, 10 August 2016

A puta da minha vida

Hoje doi-me o peito.
Algo força a saída,
Por nada ter feito
Com a luz reprimida

Castigo o qual aceito
Por guardar a voz escondida,
Fiz a cama em que me deito
Com a puta da minha vida.

E os meus olhos congelados
Pelo frio da companhia
São como rios barrados,
Gado à espera de serventia.

A lua brilha, quebrada
Por entre o gás negro que passa,
E o seu feixe é facada
Que ao meu corpo trespassa.

E só com sangue que jorra
Do golpe iluminado,
Escreveria eu a porra
Deste poema enfeitiçado.








Wednesday, 29 June 2016

Fendas

Diz-me lá, oh tela animada!
Que segredos hoje desvendas
Onde me levas, por que estrada?
Quero mitos, quero lendas.
A vida que vivo, desapegada,
Grita por dentro, corre nas fendas
Fundas da carne embriagada
Pelo barulho pelas contendas.
Conta-me o conto de fada
Enquanto ponho as minhas vendas,
Não vá a mente enganada
Germinar tormentas,
Porque, às vezes, de vista tapada
Antecipam-se prendas.
Já cai a noite aveludada
E nas estrelas leio as legendas
De uma só caminhada
Sem mal sem reprimendas
E a fé outrora apunhalada
Emerge por entre águas horrendas.







Monday, 13 June 2016

Peço morte

Peço morte ao que sou
Como quem pede clemência
Que o vento varra tudo o que ficou
Desta vaga existência

E nú ao mundo retorno
Desta vez já não me visto
Não jogo o jogo do suborno
Que me leve o imprevisto

Toda a certeza
Gira nas rodas da razão
E é de sua natureza
Estar um passo à frente,
Do alcance da mão

Não quero nada
Para nada ter com que regatear
A fronteira do não ter acaba
Às portas do meu olhar.

Há sol, há lua,
Há o meu respirar,
Há aquilo que flutua
No silêncio a embalar.












Monday, 9 May 2016

Pomares

Tenho um pomar maduro dentro de mim à espera da altura das colheitas, e não tenho tempo para colher, não me dou tempo para passear por entre as arvores e sentir os cheiros de fruta que pede o beijo com saliva, pede a mordidela pede a morte doce o estilhaçar das texturas o orgasmo das sementes o esguichar das seivas.
Floresço na solidão, no encontro comigo mesmo, a história de amor mais bela de todos os tempos é aquela da viagem que nos leva a apaixonarmo-nos por nos próprios, de conhecer os nossos segredos, os nossos desejos sem julgamento e com compaixão e unir as feras que lá dentro deambulam.
Sento-me em silencio e contemplo os movimentos do meu corpo, observo e sigo as energias as sensações, é uma linguagem que nos grita constantemente a todo o instante, o corpo possui uma forte intuição, avisa-nos, guia-nos por este mundo barulhento, mas por vezes é difícil parar para ouvir as sábias mensagens dos músculos e tendões, a sabedoria da carne e dos ossos.
São tantos aqueles que nos habitam, tantos a considerar antes de decidir o que quer que seja, que se acaba por não decidir nada.
Não sou eu quem escreve isto, é o meu estómago. É de lá que sai verdade, é lá onde está o trono da alma onde se senta e reina, e estende o seu olhar morno as suas posses aos seus campos e florestas ao seu reino. Palavras parecem não possuir suficiente peso e conteúdo para descrever estas coisas invisíveis e puras, estas palavras estão gastas e usadas como prostitutas velhas que perderam o prazer.
As vezes sinto que sou o clima, dizem que o clima influencia as pessoas mas eu já presenciei e experienciei que o clima e pessoas tem uma ligação muito mais forte, o clima é como se fosse a manifestação física das sensações de alma como se fosse a projecção do filme do turbilhão de sentimentos e sensações da alma na tela do mundo. Não há separação, e é ilusório pensar o contrário.
É também ilusório buscar felicidade exteriormente a nós próprios, partir em cruzadas vãs quando o graal está humoristicamente a ser carregado nessa busca por si mesmo. É verdade e não tenham dúvidas, que os tesouros que vivem dentro de nós mesmos são suficientes para perfumar não uma mas inumeráveis vidas, e encher de cor e acender todas as almas que entrem em contacto directa ou indirectamente.

Wednesday, 10 February 2016

Santidade


Há neste mundo muita falsidade
Graves feridas na verdade
O que muitos descrevem como felicidade
Não passa de egoismo puro, mascara da maldade
Desde tenra idade
Que enoja-me tal fealdade
Fundi-me com sonhos, fugi a esta realidade
Observei friamente esta chamada irmandade
E por mais que o cérebro queira aceitar, o coração bem sabe
O quão amargo sabe à boca quando diz, humanidade.





Tuesday, 26 January 2016

Criei

Criar é dialogar com a penumbra
É nutrir a própria loucura
É atirar-se à ventura
De onde o todo ressumbra

Saltar fogueiras
Beber veneno
Passar as fronteiras
Do bem e do obsceno

É amamentar a nossa criança,
Que jaz negligenciada
Nesta caverna encerrada,
E dar amor, dar esperança

Partir os muros que nos vedam
Para que a luz pelas gretas verta
E partilhar e que todos aprendam,
Perfeição é inerente, nada é necessário que se inserta.















Thursday, 21 January 2016

Um poema

Um poema é uma carta
Do coração à mente
É manifestar de forma farta
Aquilo que a carne sente
Lixo astral que se acarta
Força independente

É um morno doer
Que afaga o peito
Um inquieto moer,
Um raio eleito,
É a boca a tecer
Aquele beijo perfeito.

Porquê que te procuro
Para quê te invocar
Pareces-me mais belo no escuro
Do que à luz a brilhar
Fruto fresco e maduro
Roubado ao pomar

Outras vezes entro furtivo
Nos campos germinantes
Deslizando nas sombras escondido,
Com movimentos tratantes,
Do sagrado arquivo
Colho as chamas exuberantes

E tal Prometeu foragido
Corro, doido, de tocha levantada
Por cães negros perseguido
Em busca da madrugada
E cansado, ferido,
Arrombo ao dia os portões de entrada

E solto ao mundo o meu rugido
Com paixão desenfreada
Quero choro, riso, alarido,
Desta poeira animada
Quero o que é prometido
Nesta sina conspirada.