Monday, 9 May 2016

Pomares

Tenho um pomar maduro dentro de mim à espera da altura das colheitas, e não tenho tempo para colher, não me dou tempo para passear por entre as arvores e sentir os cheiros de fruta que pede o beijo com saliva, pede a mordidela pede a morte doce o estilhaçar das texturas o orgasmo das sementes o esguichar das seivas.
Floresço na solidão, no encontro comigo mesmo, a história de amor mais bela de todos os tempos é aquela da viagem que nos leva a apaixonarmo-nos por nos próprios, de conhecer os nossos segredos, os nossos desejos sem julgamento e com compaixão e unir as feras que lá dentro deambulam.
Sento-me em silencio e contemplo os movimentos do meu corpo, observo e sigo as energias as sensações, é uma linguagem que nos grita constantemente a todo o instante, o corpo possui uma forte intuição, avisa-nos, guia-nos por este mundo barulhento, mas por vezes é difícil parar para ouvir as sábias mensagens dos músculos e tendões, a sabedoria da carne e dos ossos.
São tantos aqueles que nos habitam, tantos a considerar antes de decidir o que quer que seja, que se acaba por não decidir nada.
Não sou eu quem escreve isto, é o meu estómago. É de lá que sai verdade, é lá onde está o trono da alma onde se senta e reina, e estende o seu olhar morno as suas posses aos seus campos e florestas ao seu reino. Palavras parecem não possuir suficiente peso e conteúdo para descrever estas coisas invisíveis e puras, estas palavras estão gastas e usadas como prostitutas velhas que perderam o prazer.
As vezes sinto que sou o clima, dizem que o clima influencia as pessoas mas eu já presenciei e experienciei que o clima e pessoas tem uma ligação muito mais forte, o clima é como se fosse a manifestação física das sensações de alma como se fosse a projecção do filme do turbilhão de sentimentos e sensações da alma na tela do mundo. Não há separação, e é ilusório pensar o contrário.
É também ilusório buscar felicidade exteriormente a nós próprios, partir em cruzadas vãs quando o graal está humoristicamente a ser carregado nessa busca por si mesmo. É verdade e não tenham dúvidas, que os tesouros que vivem dentro de nós mesmos são suficientes para perfumar não uma mas inumeráveis vidas, e encher de cor e acender todas as almas que entrem em contacto directa ou indirectamente.